sábado, 18 de agosto de 2007

EXTRAÍDO DE: "CRÔNICAS DE VIAGEM" CECÍLIA MEIRELES.

RUMO: SUL (IV)

1

Amanhecemos no Paraná, sob um sol de suave glória. Taças de pinheiro oferecem altos vinhos azuis. Aparecem as primeiras e encantadoras casas de madeira. Um mundo de brinquedos brancos, vermelhos, verdes, dispostos na veludosa caixa matinal do terno campo. Aparecem crianças louras, descalças mirando a passagem do trem. São bonecas silenciosas e admiradas, de mãos e pés de coral, sustentando no flanco o irmãozinho pequeno, sustentando nos braços o cachorrinho peludo, ou simplesmente - como expressão virginal da terra - levantando para o trem uma flor que parece caída do sol. Como nos aproximamos de alguma estação, aumenta o numero de casas, aparecem mais crianças louras, mais irmãozinhos, mais flores, e agora brilha a madeira clara, desnuda, pacientemente amontoada em largas camadas de tábuas finas.
Mais adiante madeira mais nova está secando ao sol, cruzada de X.
E aqui estão as serrarias.
E ali estão os pinheiros.
Todas as casas têm cortinas. Todas as crianças, agora, têm calcinhas de lã, casaquinhos azuis...
E um leve sol dourado galopa com os cavalos soltos nesse tranqüilo mundo vegetal.

2

É um mundo sem fim de pinheiros, de chalés de madeira com janelas graciosas, de crianças de melena cor de prata cintilando como pinceladas metálicas.
As igrejas, de madeira também. Com mais divindade.
Desenham-se os cercados de madeira, em cujos limites vêm pensar grandes bois sossegados, vagarosas vacas, delicadas e imensas.
E um carro de coberta de lona armada em arco vem rodando alegremente com um ar festivo de quem vai, mais adiante, encontrar a felicidade.
Assim se chega a Marechal Mallet, onde há uma pracinha insignificante, com meninas caladas pelos bancos.
O mais lindo chalé que se avista é o branco de janelas verdes, que parece estar ali de propósito, esperando alguém que algum dia com mãos puras o venha copiar.

3

É preciso celebrar estas cercas de ripas que os paranaenses estendem ao redor das casas e ao longo dos campos. São de várias cores, umas fininhas, outras bem largas, e terminam sempre em bicos, pintados às vezes de cores diferentes. Elas recordam outras coisas igualmente maravilhosas: rendas de saias antigas, recortes de papel em caixas de figos e em caixas de bonecas. É preciso celebrar também as grades, os portões, as engenhosas coisas de madeira cruzada, de madeira sobreposta, que nessas pequenas cidades do Paraná são gestos de poesia desdobrando-se, enfeite da vida, sorriso da criatura humana, na amargura de sua breve condição.

4

Longe estão os pinheiros. Perto, as pereiras avermelhadas rodeiam as casas, com elegantes, aladas atitudes. Estão segurando a tarde que desce do céu azul. De um céu azul que não formou nuvem nenhuma até agora.
Para a frente, o clarão final do sol derrama no campo uma onda de fogo.
E viajamos dentro da cor.
E as casas brandamente se assentam, entre as pereiras que empalidecem.
E o clarão do sol é agora um campo de violetas.
E a lua corre como um balão dourado atrás do trem: passa pelos pinheiros, flutua, desaparece por detrás de uma colina, por detrás do trem - e de novo bóia nos ares azuis, tão leve, tão transparente, tão sem astronomia, - flor, floco de seda, madeixa de ouro e de prata que o vento leva por cima do mundo...