quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De partida, ou não...




Quando você vai embora, a convicção de nunca mais voltar, de sumir, de desaparecer, é tão grande que você chega a pensar no momento que vai ser de fato capaz de fazê-lo. Então você sai, perambula pelo mundo e retorna cabisbaixo, como um derrotado do medo, o mundo é superior às suas crises e ele não vai dar pause por você. Então, além de derrotado você é impotente.


Você pode decidir partir inúmeras vezes, mas vai retornar de cada uma delas, independentemente da crise ou da gravidade dela, de alguma maneira, foram estabelecidos laços fortes, quase inquebráveis, entre você e aquilo que desconfortavelmente você denomina LAR.

Seu retorno é também sua sina.

Se as coisas acontecessem de outra maneira seu humor seria outro, sua decisão seria outra, pra você alguma coisa seria diferente, mas seria de fato diferente?

O céu não seria mais azul, o sol não brilharia com maior entusiasmo. Mas, o fato de você estar cegado por seus problemas te faria achar que esse foi o primeiro dia de sol depois de anos de chuva.

Porque somos tão dependentes do mundo e ele nada dependente da gente?

domingo, 25 de outubro de 2009

É muita pretesão a minha querer um IMPOSSIVEL FUTURO limpo?
Sem pessoas, sem sons, sem cores, sem aromas, sem vida?
As pessoas me são tão LIXO, assim como outras me são tão necessárias, tá eu confesso u.u

Hoje, pra mim, as pessoas são música.
Dentre elas existem as insuportáveis, que você ouve a ausência de melodia e quebra o aparelho de som pra não ter que tornar a ouvir aquele barulho horrendo, um desarranjo completo.
Existem as que você aprende a gostar meio a contragosto, como se fossem colados headphones no ouvido e de tanto ouvir aquele som 'estranho, diferente' você percebe que tem certa qualidade.
Há aquelas que gostamos por que a gente nasce cantando, e nosssa vida sem elas não seria a mesma vida. Existem ainda outras que são como amor a primeira vista, você ouve, se apaixona, e não para de ouvir até enjoar e quando vc enjoa e deixa ela de lado por algum tempo quando você volta a ouvir, ela se torna ainda melhor.
Então a vida seria trilha sonora?
E que maldita trilha sonora, onde o AXÉ, o FUNK e o PAGODE são os Senhores Supremos.
Maldita Música, MALDITA VIDA!
Quebrem os instrumentos, cortem as cordas vocais...
É melhor não ouvir música alguma do que SUJAR os ouvidos.



domingo, 4 de outubro de 2009

INTERVALO DOLOROSO

Tudo me cansa, mesmo o que me não cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor.

Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de quinta, com um dossel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água.

Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.

Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço? e quem é triste não pode esforçar-se.
Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto queria abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o de alma com que esforçar-me.

Quantas vezes me punge o não ser o manobrante daquele carro, o cocheiro daquele trem! qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha, deliciosamente se me penetra de eu querê-la e se me penetra até de alheia!
Eu não teria o horror à vida como a uma Coisa. A noção da vida como um Todo não me esmagaria os ombros do pensamento.
Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.
Sou tão inerte, tão pobre, tão falho de gestos e de actos.

Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.

Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro.

A minha vida é como se me batessem com ela.


Livro do Desassossego
Fernando Pessoa